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A CHAVE PARA O CÉU ESTRELADO

Era uma vez uma menina, ela sonhava em poder ser feliz e dormir tranquila, mas depois da guerra que ocorreu no seu país, isso se tornou impossível. Sozinha, pois tinha perdido seus pais na guerra a única coisa que a acalmava era a música, por muitas noites ela passou sozinha acordada tocando o velho piano da família, a única coisa que havia sobrado intacta depois da guerra. Até que um dia uma pessoa a achou e a adotou, e sua única companhia, o piano, ficou no esquecimento.

O tempo passou e a menina tornou-se uma bela moça. Aos 16 anos ela trabalhava em uma hospedaria limpando, servindo e arrumando; sua vida se resumia a isso. Mas ela não reclamava, sorria para todos os clientes e fazia um bom serviço. Um dia, enquanto ia para a hospedaria, ela se deparou com um antigo vilarejo abandonado, mesmo sabendo que deveria ir logo para casa, algo disse que ela deveria entrar. Enquanto percorria as ruínas as cenas dos dias de guerra no país jorravam em sua mente, ela não pode evitar de pensar em quantas pessoas daquele vilarejo perderam suas vidas. Sem perceber quão precária estavam as ruínas ela continuou andando, até que bem acima dela uma parte da parede de uma casa desabou, ela se viu empurrada para fora do caminho das pedras, assim que elas atingiram o chão, ao seu lado estava um garoto de cabelos pretos e olhos cinzas, que a tinha salvado.

- UAL! Essa foi por pouco, eu sou Riam, você está bem?

- Sim, obrigada, o meu nome é Lucia.

- Você não deveria estar andando por ruínas, o que veio fazer aqui?

- Eu? Acho que posso fazer a mesma pergunta a você.

- Eu ... er bem, eu não sei, eu encontrei esse lugar há poucos dias; geralmente eu ando por lugares e procuro por coisas novas.

Lucia tinha achado aquele menino muito estranho, mas ao mesmo tempo muito curioso.

- Você é por acaso algum tipo de artista? Disse ela reparando na manga da blusa dele suja de tinta.

- Não exatamente, eu trabalho em um ateliê, moldando cortando e pintando vasos, mas às vezes eu faço algum tipo de pintura, para mim é uma forma de fugir dos problemas. Explica o garoto.

Lucia, a partir desse dia, teria arranjado uma grande amizade. Todos os dias, quando ela saia do trabalho, eles se encontravam nas ruínas e conversavam sobre os mais diversos assuntos. Lucia contou a Riam a história de seu passado sobre seus pais terem morrido na guerra e de como se sentia sozinha as noites e só a música a acalmava, como sentia falta da música e de como ainda era assolada por pesadelos.

- Se sente saudades de tocar, então volte a tocar; se não tem uma oportunidade, então crie uma; se tem medo, então enfrente-o; senão, tudo que você poderá fazer é ficar em uma gaiola com a porta aberta. Sabe, eu sei de um lugar muito legal, venha comigo. Disse o garoto estendendo a mão para a menina.

De alguma forma Riam conseguia fazer com que Lucia se sentisse tranquila, como um irmão a quem pode se confiar segredos. Os dias passados com ele tinham sido sempre muito divertidos, ele já tinha feito uma pintura dela sentada em um campo com os cabelos loiros ao vento e os olhos azuis reluzindo, ele com certeza era um pintor excelente.

Os dois caminharam lado a lado até a cidade onde, um pouco além, havia uma floresta e no meio dela havia um clareira com uma pequena igreja.

- Eu a encontrei enquanto explorava incansavelmente a floresta. Disse Riam com um ar orgulhoso.

- Em outras palavras você estava perdido. Implica Lucia

- Isso e um grande insulto.... é, eu estava. Admite riam

A igreja já não era usada há muito tempo, parte dela havia desabado, provavelmente na época da guerra. Riam mostrou à menina a grande coleção de livros que havia descoberto, um grande pote de cerâmica com detalhes esculpidos, mas que estavam todos cobertos por poeira. Tudo parecia abandonado e coberto de cinzas, até que algo chamou a sua atenção. No canto da igreja um grande piano de cauda coberto por uma cortina que havia caído, a menina se voltou para o grande instrumento como se ele a chamasse e puxando a cortina pode vislumbrar a madeira escura e as teclas de marfim. Acima do piano, no altar, havia uma grande cruz.

- Se não sabe por que tocar, então toque para alguém, mostre seus sentimentos para a quem pode confiar, através da música também. Dizia Riam parado atrás de Lucia olhando para a grande cruz de madeira

Nesse momento Lucia se esqueceu de tudo a sua volta, Riam a observava e por fim o som começou a ressoar por toda a igreja, a melodia calma produzida pelo instrumento, a emoção passada pelas notas logo ecoou por todo lugar, como uma canção de ninar que envolvia tudo a sua volta, todos os sentimentos e toda a vida de Lucia estavam postos nas notas que ecoavam tornando o ambiente calmo ao mesmo tempo que cheio de vida. Com os olhos fechados, Lucia balançava ao ritmo da música, e por fim ela deixou ecoar as últimas notas até que elas desaparecessem no ar.

Lucia então se virou para Riam, que a olhava de modo encantado.

- Eu não disse a você? Você é.... ca...paz ... uhg!

Lucia não entendeu o que aconteceu, enquanto falava, Riam ficou pálido e pôs a mão a cabeça, como se estivesse sentindo uma dor profunda, caiu no chão agonizando. Imediatamente a menina correu para o lado dele.

“Riam! O que houve? Ah, meu Deus, está ardendo em febre! Riam! Riam, vamos, aguente firme!

Com a voz fraca, Riam olha para ela e diz:

- Desculpe, eu acho que estraguei um pouco as coisas...

- Ora, deixa de palhaçada, aguente, vamos voltar à cidade

- Você toca muito bem.

Então ele desmaia.

***

Andando de volta para casa, lúcia estava sozinha, as ruínas agora pareciam só ruínas, não havia mais graça em andar por ali sem Riam, que permanecia internado em estado grave no hospital da cidade. A menina acabara por descobrir que ele, há muito tempo, sofria de uma doença que se agravara nos últimos anos, “ele não terá muito tempo”.

- Você deveria se cuidar melhor, sabia? Dizia Lucia quando foi visita-lo.

- Eu nunca fui bom de saúde, durante a guerra eu perdi tudo, mãe, pai, irmão, nunca achei muito sentido em continuar vivo, mas mesmo assim eu tentava seguir em frente, até que um dia eu olhei para o céu e pedi ajuda, pois eu já não via mais sentido em nada, e no dia seguinte eu conheci você.

Riam então olha para Lucia e sorrindo diz:

- Você me ensinou o que quer dizer a palavra amizade e me motivou a continuar vivo, mas mesmo assim...

- Você vai continuar vivinho da silva, e não adianta dizer o contrário, é uma ordem, ainda tem muita coisa pra viver e descobrir e dar muitas risadas das minhas piadas ruins. Lucia dizia

Um tempo depois Riam seria encaminhado para uma cirurgia onde teria 50% de chance de não sobreviver, mas caso contrário, seria a solução para a doença. Lucia não pode visita-lo, então todas as noites ela ia à igreja na floresta e tocava o grande piano, o que sua música passava era um único sentimento e um único pedido “por favor... por favor”.

No dia seguinte, Lucia foi correndo ao hospital, o medo de que algo teria acontecido apertava-lhe o peito, ela foi ao encontro do quarto onde ele deveria estar, no entanto agora estava vazio, ela, mesmo com medo da resposta, perguntou ao médico onde Riam estava. O doutor por sua vez teria falado de imediato se não fosse a voz que atrás dela o interrompera chamando-a pelo nome. Ao virar-se Lucia se depara com um garoto de cabelo preto despenteado a olhos cinzentos.

- Foi um sucesso! Tudo ficará bem agora. Disse o médico com um sorriso no rosto.

Lucia, no entanto, nem prestou atenção no que ele falou, só havia pensado no alívio de ver Riam vivo e abraça-lo. Seu melhor amigo, que a ensinara a viver novamente.



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