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O Herói de Sicriti

Num dia como qualquer outro, a lojinha abriu vendendo suas tantas bugigangas e comidas, mas algo parecia diferente na mente do vendedor e a princípio ele achou que tinha esquecido algo no forno... e era exatamente isso.  Esquecendo que havia um negócio para cuidar, Getulinho saiu correndo porta a fora cruzando a rua sem nem mesmo olhar para os lados! Por onde passava ouvia alguém gritando “Vai livrar a mãe da morte?!” ou “Maluco!”, afinal não era comum ver alguém correndo tão apressado pelo vilarejo.

Chegando em casa, o horror passou por Getulinho, como se tivesse visto um fantasma. Tudo estava destruído, não havia pedra sobre pedra. “Um tornado, vendaval, quem sabe o que se passou aqui?!”. A casa estava uma bagunça, cadeiras jogadas para fora, madeira para todo o lado e chamas saindo da cozinha. Em minutos, a vizinhança já estava reunida ajudando a apagar tudo, mas o que se passava na cabeça do vendedor era “Onde está Carminha?!”. Bom, quem via a cena não sabia o que precisava de mais atenção uma casa com começo de incêndio por algum resto de frango esquecido no forno ligado ou um coelho apavorado andando em círculos. Para achar essa resposta, bastava olhar a reação do coelho correndo floresta adentro.

— Aonde você vai? – exclamou um rato que carregava um balde de água.

— Procurar minha amiga. Ela estava cuidando do meu cão e sumiu – respondeu Getulinho afobado.

Se na sua mente surgiu uma dúvida como “Como esse coelho sabia pra onde ir?”, então siga o rápido raciocínio do nosso herói. O vilarejo é extremamente pacífico, logo ao seu redor o mal com certeza predomina, pois onde há o bem tem de haver o mal e só havia uma pessoa capaz de perturbar a mente do coelho, seu maior rival de todos, Doutor Lock. Pergunte a qualquer morador de Sicriti e ele lhe responderá “Lock é um coiote velho e maldoso que vive num forte ao norte”, “Foi expulso do vilarejo após tentar tomar o lugar do Prefeito” ou “Maldito seja ele por roubar-me 10 moedas de ouro!”. A fama dele não era boa por ali, mas principalmente para Getulinho já que insistia em raptar sua amiga ou destruir sua casa e fugir para o Forte Horror.

...

            Dentro da floresta, o coelho pôde mostrar sua verdadeira identidade e girando sua gravata fez surgir sua fiel companheira a Espada Cenoura. Não pense que era uma espada mágica ou coisa parecida. Em verdade, era apenas uma espada laranja bem afiada e de metal muito bem trabalhado.

Cortando alguns galhos e cipós que atrapalhavam seu caminho, o herói chegou numa pequena clareira encontrou 3 ratos que ao perceberem sua presença sacaram floretes dizendo:

— O que quer por aqui, amigo?

— Ei, fiquem calmos. Só estou procurando minha amiga. Viram um coiote com uma coelha passando por aqui?

— Se quiser esta informação terá que passar por cima de Trevor, Dique e eu – falou o segundo rato e avançou sobre Getulinho que aparou seu golpe.

— Calma! Eu lhe disse que só estou de passagem, mas se quer realmente brigar, por que não fazemos um jogo?

— Gosto de jogos. O que tem para nós? — disse Trevor.

— Concordem comigo que três contra um é covardia, certo? Então elejam um entre você e iremos lutar. Se eu ganhar, vocês me dizem onde está minha amiga, senão podem simplesmente matar-me.

— Certo. Gostei. Eu irei te derrotar – exclamou Dique.

— Ora, cale a boca, seu fracote. É mais do que certo que eu sou o rato ideal para acabar com esse coelho fanfarrão – vangloriou-se Pero.

— Vocês são tão fanfarrões quanto esse coelho. Eu vou acabar com ele – disse Dique avançando contra seus amigos.

— Parem a briga. Vejo que vocês são todos fracos. Não sabem nem mesmo suas forças!

— Calado, rato. Você é tão fraco quanto nós e está querendo ir pro norte pegar sua amiga – falou Pero.

— Ah, bela informação... Até mais, rapazes – exclamou Getulinho e correu no meio dos ratos cortando as tiras de couro que seguravam suas calças e correndo mais uma vez no meio das árvores.

— Volte aqui, coelho covarde – gritaram em coro os ratos levantando suas calças aos tropeços.

 Sem nem mesmo dar uma olhadela para trás, o herói espertalhão evitou desperdiçar sua energia numa batalha e chegou até o Forte Horror do Doutor Lock. A visão do forte era tão assustadora quanto possível. Lanças nas torres, portão lotado de musgo velho com larvas e o que pareciam morcegos dormindo nos cantos escuros. Passando corredores sombrios e barulhentos, nosso bravo herói chega a uma imensa sala repleta de aparelhos elétricos, maquinas a vapor e tubos de ensaio com alguma bebida verde ou roxa. Na sede que sentia após correr toda uma floresta, até passou por sua cabeça beber um pouco, mas esse desejo foi logo apagado pelos gritos de socorro de Carminha que estava debatendo-se numa mesa de cirurgia com o cientista louco apontando uma serra para suas enormes orelhas.

— Então você chegou, não é? Veio me impedir de ter belas orelhas como estas? – perguntou Lock encerrando o barulho incomodante da serra.

— Pela terceira vez essa semana. Você está com minha amiga e vim pegar de volta.

Como narrador, acho que não conseguiria destacar o quão grandiosa foi essa cena. Simplesmente maravilhosa! Faíscas surgiam e ressurgiam quando a serra do coiote encontrava com a Espada Cenoura e golpes eram dados e aparados, fintas feitas perfeitamente... Outras nem tanto assim. A batalha foi grandiosa. Mentiras contam aqueles que dizem que os lutadores não estavam cansados após trocar golpes, pois afobados estavam prestes a dar seu grande golpe, o fim para a batalha que seria contada através das várias eras, pois era a última...

— Esteja pronto, velho companheiro – exclamou o Doutor enquanto avançava com sua serra prestes a lançar um golpe de baixo para cima.

— Sempre!

Um momento de silencio... Como se não houvesse mais nada no mundo e tudo parasse para observar aquele curto instante, diria até curtíssimo, quando de um lado estava o maior herói que Sicriti havia visto e do outro o maior vilão. Fora do forte, não se ouvia nem mesmo o barulho de pássaros buscando o que comer no portão. Tudo estava parado e então um gotejar de um liquido vermelho se inicia fazendo com que o relógio voltasse a realizar seu velho tique-taque para o corpo peludo que jazia no chão de pedra.

— Getulinho – gritava uma voz feminina.

— Ajude primeiro ele – respondeu o coelho entre um suspiro e outro.

— Mas... Você também precisa!

— Ora, ajude-o logo. Sem ele não tenho ninguém para derrotar...

Tão rápido quanto suas pernas permitiam, Carminha correu de um lado para o outro enfaixando e jogando anti-séptico. Incrível o que a chefe das enfermeiras poderia fazer em momentos de crise. Engraçado como ele conseguia ser herói até mesmo nos momentos mais difíceis de sua vida, não é? Talvez fosse realmente um coelho exemplar.

No fim de tudo, Getulinho reconstruiu sua casa ao lado de um rio que passava pelo vilarejo e voltou para sua lojinha. Lock sumiu depois de passar dois dias no hospital. Dizem que ele tinha medo de agulhas ou algo assim, mas o mais curioso de tudo isso é que antes de ir embora deixou uma carta agradecendo a ajuda e convidando seu rival para “tomar um chá de balão volumétrico”. O que se espera desse chá, ninguém sabe... Na verdade, até sei, mas isso é uma outra história.



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